The bite of the assassin bug brings Chagas disease to millions in Latin America
Marcelo de Campos Pereira
[RIO DE JANEIRO] Pesquisadores da Espanha e do Peru anunciaram que deram um passo importante para o desenvolvimento de uma vacina contra a doença de Chagas, mal que estima-se que infecta 12 milhões de pessoas na América Latina, matando dez mil a cada ano.
Caso a vacina tenha sucesso nos testes clínicos, os cientistas vão superar um desafio que vem mobilizando centros de pesquisa em todo mundo. Até o momento, não há vacina contra protozoários, um grupo de parasitas que incluí o Trypanosoma cruzi — o agente da doença de Chagas — e os causadores da malária e das leishmanioses. Esses parasitas são conhecidos pela capacidade de escapar dos mecanismos de defesa do sistema imunológico humano.
O Trypanosoma cruzi normalmente infecta as pessoas quando elas são picadas pelo inseto barbeiro. A doença também pode ser transmitida por transfusão sangüínea e da mãe para o bebê durante a gravidez.
Os pesquisadores usaram um gene do parasita como base para uma vacina de DNA. Quando injetada em mamíferos, a vacina, que contém fragmentos de DNA, induz as células receptoras a produzirem a proteína originalmente só preparada pelo parasita. Isso dispara um gatilho para uma resposta imunológica à proteína, embora o parasita não esteja presente. Assim, se o indivíduo for infectado pelo parasita, seu sistema imunológico será capaz de reconhecê-lo e combatê-lo.
"Em testes com animais de laboratório, a vacina provocou um alto grau de proteção contra a doença de Chagas, em torno de 90%", diz o coordenador da equipe de pesquisa na Universidade de Granada, Antônio Osuna.
A proteína utilizada na vacina em teste controla a capacidade do parasita em capturar lipídeos através de sua superfície. A proteína foi identificada por Ofélia Magdalena Córdoba, da Universidade de Trujillo, no Peru, durante uma pesquisa que procurava caminhos para bloquear o metabolismo normal do parasita.
Osuna afirma que os pesquisadores continuarão a trabalhar nesta candidata à vacina, esperando avançar até o estágio de testes clínicos. Seus próximos passos incluem a pesquisa de adjuvantes, isto é, substâncias que dão maior eficácia à vacina na produção de uma resposta imune, resultando assim na necessidade de utilizar menor quantidade de imunizante.
Os pesquisadores dizem que o trabalho pode contribuir para o desenvolvimento de novos medicamentos para tratamento da doença de Chagas. Atualmente, os medicamentos são indicados apenas para a fase aguda, mas podem causar vários efeitos colaterais.
A fase crônica da doença, que pode ficar sem apresentar sintomas por vários anos, normalmente leva ao óbito pelo comprometimento do coração, com o transplante sendo uma das poucas formas de salvar os pacientes.
A doença de Chagas atinge principalmente as pessoas mais pobres. O barbeiro é encontrado em casas com paredes de barro e telhado de palha, comuns em áreas rurais da América Latina.
Entretanto, segundo os pesquisadores da Universidade de Granada, o parasita consegue sobreviver em alimentos como o caldo de cana, muito consumido na América Latina, com casos de infecção através dessa via de transmissão já descritos.
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