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Desafios da divulgação científica na América Latina

Luisa Massarani

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Os últimos 20 anos testemunharam um crescimento nas atividades de divulgação científica na América Latina. Mas ainda há um longo caminho a percorrer antes que se possa dizer que a divulgação científica está atingindo, de forma sistemática e ampla, todo o continente.

Atualmente, muitos canais estão sendo usados para comunicar ciência na América Latina. Estes vão desde os mais usuais – a saber, revistas, jornais, rádio e televisão – aos mais incomuns e até provocativos. Esses últimos incluem eventos públicos em bares e outros locais fora do circuito acadêmico, peças de teatro, novelas, revistas de história em quadrinho, poesia, jogos, contação de histórias, cordéis e, até, desfiles populares no Peru e desfiles de escola de samba em pleno carnaval no Brasil.

1Muitas das atividades de divulgação científica no continente fazem uso de novas tecnologias, particularmente a Internet e a multimídia, embora a cobertura de tais novas tecnologias em todo o continente continue limitada, particularmente nas áreas mais pobres.

Um papel importante também tem sido desempenhado por museus e centros de ciência interativos. Só o Brasil – para dar um exemplo – tem cerca de 100 centros de ciência em todo o país, a maioria deles sendo de tamanho pequeno e tendo sido implantada na última década.

Tais iniciativas não são isoladas. O ano de 1990 foi testemunha da criação da Rede-POP, uma rede interativa que reúne cerca de 70 membros, incluindo centros e programas para a popularização da ciência e tecnologia na América Latina e Caribe. Sua principal meta é fortalecer o intercâmbio de idéias e a cooperação ativa entre seus membros.

Além disto, houve um aumento significativo no número de congressos que reúnem indivíduos de uma gama ampla de profissões para analisar e discutir estratégias para ampliar a comunicação de questões relacionadas à ciência. A preocupação com a formação dos comunicadores da ciência tem sido um item constante em tais congressos. Embora alguns cursos (inclusive de mestrado e doutorado) já tenham sido criados em universidades e instituições científicas, há ainda necessidade de se criarem outros.

Num nível nacional, vários países latino-americanos criaram programas nacionais de divulgação científica. Um exemplo de sucesso é o programa Explora no Chile, criado em 1995 pela CONICYT (Comissão Nacional de Pesquisa Científica e Tecnológica).

O Panamá é outro país que tem um programa de popularização da ciência. Criado em 1997, DESTELLOS está vinculado à SENACYT (Secretaria Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação) do país. A implementação de um programa para a popularização da ciência no Brasil, que fazia parte da plataforma de campanha do agora presidente Lula em 2002, está sendo atualmente realizada por seu governo.

Vários planos locais também foram criados. No Brasil, por exemplo, isto foi feito mesmo em áreas remotas como o Amapá. Outros países, mesmo quando não têm um plano nacional, têm feitos esforços significativos para promover a divulgação científica, como é o caso do México.

Levando em consideração essas atividades, talvez não seja surpreendente que as questões em torno da comunicação pública da ciência também venham ganhando crescente destaque na agenda política, em parte reflexo das políticas sociais e econômicas que têm como finalidade ajudar os países da região a participarem, de forma mais considerável, na economia global do conhecimento.

No Brasil, por exemplo, agências governamentais, como o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e a Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) – ambos ligados ao Ministério da Ciência e Tecnologia –, bem como órgãos estaduais que apóiam a pesquisa, destinaram recursos para a divulgação científica. Essas atividades são, ainda, mencionadas explicitamente na legislação relativa à ciência em vários países latino-americanos, como na Costa Rica e em El Salvador.

A Organização dos Estados Americanos, através de seu Gabinete de Ciência e Tecnologia, está planejando atualmente uma Política Hemisférica para a Popularização de Ciência e Tecnologia (veja Divulgação científica é prioridade na América Latina).

Essa tendência reflete uma percepção crescente da necessidade de incrementar a relação entre ciência, público e sociedade. Parece haver um reconhecimento cada vez maior, tanto nos círculos políticos quanto públicos, de que, se a América Latina desejar se transformar numa sociedade próspera e cientificamente desenvolvida, sua população deverá ser bem-informada em questões relacionadas à ciência.

Vários governos latino-americanos, entretanto, ainda precisam ter um melhor desempenho nesta área, destinando mais fundos – e de uma maneira mais organizada – para a divulgação científica e dando um apoio mais significativo a programas que envolvam distintos atores, organizações e instrumentos, de forma a aumentar seu impacto.

Além disto, devem-se estimular iniciativas que se destinem à grupos menos favorecidos economicamente, que têm ainda um papel periférico nas atividades de divulgação científica. O público de tais atividades ainda se restringe, em geral, a pessoas das classes média e alta– e dos países mais ricos em nosso continente.

A diversidade cultural e as necessidades locais da América Latina também precisam ser levadas em consideração no momento de planejar as atividades de divulgação científica e de delinear esforços conjuntos entre distintos países. Um maior destaque à ciência produzida na região é outro aspecto que deve ser incluído nas prioridades dos grupos comprometidos com a divulgação científica em nosso continente.

Em termos de abordagem, uma questão importante que precisa ser enfrentada é o fato de uma proporção significativa das atividades de divulgação científica na América Latina se basear no assim chamado 'modelo de déficit' da compreensão pública de ciência. Em tal modelo, a divulgação científica se baseia na estratégia de transferência de pacotes de conhecimento científico de um grupo privilegiado e culto para as seções menos educadas da população.

Já nas atuais abordagens da divulgação científica, considera-se que a tarefa é muito mais complexa. O público passa a ser um protagonista importante na disseminação das informações de ciência, permitindo que indivíduos assumam uma postura que é, simultaneamente, participativa e crítica em relação ao papel do conhecimento nos processos decisórios.

O debate sobre cultivos e alimentos geneticamente modificados (GM) é um bom exemplo dessa questão. Não basta explicar os aspectos científicos relacionados ao tema (veja Por que precisamos de um novo fórum para o debate público sobre biotecnologia). É necessário levar em consideração um espectro bem mais amplo das questões relevantes, incluindo aspectos culturais; questões legais, morais e éticas; os riscos (para a saúde humana ou o meio ambiente); incertezas e controvérsias científicas; aspectos econômicos.

Outro ponto fundamental é a atitude pública para com as plantações e os alimentos transgênicos, que pode ser diferente nos diversos países. Basta, por exemplo, comparar a Argentina e o Brasil, dois países que, embora vizinhos, têm posicionamentos diferentes diante das plantações GM. A Argentina é uma importante produtora dessas plantações. Em contraste, a legislação brasileira proíbe atualmente o cultivo e a venda de produtos transgênicos (embora exista no presente momento uma exceção para a soja, veja Brazil agrees to cultivation of GM soya — for now).

Iniciativas nas quais questões relacionadas ao impacto da ciência na sociedade podem ser amplamente debatidas são bem-vindas, particularmente levando em consideração aspectos específicos de países e regiões.

SciDev.Net foi lançada em dezembro de 2001 com objetivo de ampliar a disponibilidade de informações confiáveis e fidedignas sobre questões relacionadas à ciência e à tecnologia que têm impacto sobre o desenvolvimento econômico e social dos países em desenvolvimento.

No ano passado, o portal latino-americano de Scidev.Net foi reforçado de forma a permitir o aumento na cobertura de debates sobre a ciência na América Latina. Estamos lançando agora um guia eletrônico – o e-guide – de divulgação científica em português e espanhol. O objetivo é ser uma ferramenta que ajude cientistas, jornalistas, profissionais responsáveis por formular política e todos aqueles interessados na área de divulgação científica a compartilharem suas experiências e estimule a busca por estratégias mais eficientes para comunicar temas de ciência.

SciDev.Net também vem organizando congressos sobre divulgação científica que se revelaram uma excelente oportunidade de reunir comunicadores da ciência e outros interessados no campo, bem como de fortalecer os grupos que trabalham na América Latina. Desde 2002, organizamos um total de cinco congressos neste continente, que incluíram congressos em Tobago (em 2002, link em ), Brasil (em 2003); Argentina (em 2003); Costa Rica (em 2003); Panamá (em 2004).

A complexidade dos desafios econômicos e sociais enfrentados por todos os países da América Latina faz com que seja também um desafio importante tentar comunicar temas de ciência e de tecnologia numa abordagem mais crítica e participativa. O mesmo ocorre quando se busca criar redes para unir esforços. Esperamos que SciDev.Net possa desempenhar um papel importante nestas tarefas e que, assim, contribua para o esforço coletivo. Convidamos você a participar conosco neste esforço!

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